
É proibido comer
Eu folheava uma revista de moda, quando de repente o olhar de uma modelo me prendeu. Era jovem, não teria mais do que 13 ou 14 anos, e seu rosto era lindo e delicado - porém extremamente triste. Seus olhos azuis cercavam-se de uma sombra escura, as faces eram encovadas e os lábios descaíam num sorriso de mentira. Diante de tamanha melancolia, e tendo o cenário atrás dela uma iluminação difusa, pus-me logo a imaginá-la um anjo caído, movendo-se por algum purgatório ou umbral, região perdida entre o céu e a terra.
Passei a página. Lá estava ela outra vez. O mesmo tipo de roupa vaporosa, o mesmo olhar, a mesma dor. Mas, talvez por força de iluminação diferente, já parecia real, mais menina do que anjo. E foi o que me fez adivinhar a razão de sua dor: ela estava com fome.
Tive certeza de que era essa a razão de sua tristeza, porque me lembrei de ter visto, meses antes, em outra menina, expressão igual. Nessa outra ocasião, eu estava no Penafiel, restaurante tradicional do Centro do Rio, um lugar que prima pela decoração simples e uma comida deliciosa e cheia de calorias. De repente, a menina entrou, acompanhada do pai. Notei de imediato a sua beleza triste. O pai, ao contrário, já grisalho e ar bonachão, parecia animado e feliz.
Sentaram-se. O pai foi logo pedindo cerveja, mas a menina, pelo que percebi, nada quis beber. Chegaram então, como entrada, empadinhas de camarão. Vi o olhar guloso do pai, apanhando-as, uma a uma, satisfeito da vida. E a menina não comia nada.
Logo chegou o prato principal. O pai escolhera um arroz de frutos do mar, com anéis de lula, pedaços suculentos de polvo e camarões imensos, derramando-se da travessa. E a menina uma salada mista, aquela salada de restaurante tradicional, com alface, tomate, ovo cozido e uns pedaços de cenoura, na certa cozidos em água e sal. Nada mais frugal. A menina se serviu e começou a comer. Levava horas para dar cada garfada, rasgando e dobrando as folhas de alface com todo critério, como se fizesse um embrulho de presente. Ou come se quisesse enganar a fome. O pai, entre risadas, oferecia a ela seu arroz de frutos do mar, insistindo, insistindo. E a menina irredutível.
Terminado o prato, o pai ainda se deu o prazer de uma sobremesa portuguesa, algo que não percebi bem o que era, mas que parecia cheia de gemas, açúcar e calorias. Comeu o doce acompanhado de uma xícara de café. A menina esperava, de braços cruzados. Quando se levantaram pra ir embora, a mocinha parecia mais deprimida do que ao entrar. Vi sua silhueta recortada contra a porta de vidro. Em seguida, desapareceu.
Fechei a revista, mas continuei pensando naquelas duas meninas tristes. E em todas as outras que vemos por aí, sempre falando em dietas, sempre tentando emagrecer. Lutando para alcançar um padrão de corpo que contraria a natureza e parece ter sido criado apenas para fazer sofrer – pois é inalcançável. Qualquer mocinha que não viva à base de alface e água - a não ser as que, por natureza, tenham a sorte de ser muito magras - vai olhar-se no espelho e chorar porque não tem aquele aspecto doentio que se vê em quase todas as páginas de moda.
É curioso. Filhos ou netos da geração que fez a revolução da contracultura, os jovens de hoje podem quase tudo, foram criados com liberdade, têm acesso a um universo ilimitado de informações e de ofertas de consumo. E talvez seja esse o problema – o excesso. Lembro que quando eu era criança, só havia dois tipos de biscoito doce. Hoje, em qualquer lojinha de posto de gasolina, há prateleiras inteiras de biscoitos de várias qualidades, recheadas ou não, com chocolate, nozes ou passas, o que for. Mas tudo isso para quê, se vivemos todos (e principalmente os jovens) torturados, com medo de engordar?
Chega a ser irônico. Lutou-se tanto para mudar o mundo e de que adiantou? Agora, quando quase tudo é permitido, alguém inventou que é proibido comer.
Texto escrito por Heloísa Seixas, escritora de romances, contos e crônicas.
Depois desse texto acho que não preciso dizer mais nada. Tem muita verdade nele... Vou linkar as novas meninas e passar no cantinho de cada uma! :*’xx e uma semana light pra todas!
- Escrito por no food às 01h34
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